Sessão 1 · Pensamento Económico e Escassez
Princípios de Economia e Gestão I
Mestrado em Matemática Aplicada à Economia e à Gestão.
Regente: Paulo Fagandini.
Vamos construir intuição e vocabulário económicos, úteis para quem vai trabalhar em banca, seguros e investimento. Também vamos apresentar os modelos centrais da Economia.
Esta é uma cadeira de 6 ECTS, com 168 horas de trabalho no total. Temos 13 semanas (incluindo o teste intercalar), o que dá 39 a 42 horas (se contares o teste final) em sala de aula. Isto quer dizer que se espera que dediques, ao longo do semestre, 126 horas de estudo autónomo a esta cadeira.
Introdutória, de acesso livre (CC BY), em inglês:
Tratamento formal, para ir mais fundo:
O programa faz corresponder cada sessão a capítulos dos quatro. Nos slides, uma nota 📖 no fundo do slide diz-te exatamente de que secção veio um exemplo, e tem ligação direta para ela no livro online gratuito. 🔖
Avaliação periódica, dois testes escritos presenciais:
| Teste | Data | Matéria | Peso |
|---|---|---|---|
| Intercalar | 28/10/2026, 18:00, sessão 7 | Bloco 1, Microeconomia | 50% |
| Final | 11/01/2027, 16:30 | Bloco 2, Macroeconomia | 50% |
Para aprovar: pelo menos 10 em 20, na média ponderada arredondada às unidades, portanto uma média de 9,50 já aprova.
O exame de recurso é a 29/01/2027 às 13:00, e está aberto a todos, incluindo quem fez os testes e não aprovou. 📅
🧮 Calculadora: apenas científica básica. Calculadoras gráficas não são permitidas.
📵 Dispositivos: auriculares, smartwatch, smartphone ou qualquer dispositivo eletrónico durante um teste conta como fraude.
As regras completas, o mapa de leituras e o calendário estão (ou vão estar em breve) no programa, na página da cadeira. 🔗
| # | Bloco 1 · Microeconomia | # | Bloco 2 · Macroeconomia |
|---|---|---|---|
| 1 | Pensamento económico e escassez | 8 | PIB, medição e crescimento |
| 2 | Escolha do consumidor | 9 | Desemprego, inflação, trabalho |
| 3 | Procura e elasticidade | 10 | Moeda, banca e inflação |
| 4 | Produção, custos, estruturas de mercado | 11 | Política monetária |
| 5 | Equilíbrio de mercado e impostos | 12 | Política orçamental |
| 6 | Incerteza, risco e informação | 13 | A economia aberta |
A sessão 7 é o teste intercalar, por isso não há slides da sessão 7. Um tema por sessão, e cada parte de cada sessão acaba com exercícios. 🧩
A escassez obriga a escolher. Tudo o que vemos hoje responde a uma de duas perguntas sobre essas escolhas.
Parte 0 · O que é a economia? O objeto de estudo, os seus dois níveis, e a diferença entre descrever e prescrever.
Parte 1 · Como escolhe um agente? Excedente, custo de oportunidade, custos afundados, e escolher na margem.
Parte 2 · Como escolhe uma sociedade inteira? Especialização, a fronteira de possibilidades de produção, e porque é que a sua forma é o mesmo custo de oportunidade, em ponto grande.
Seguimos uma abordagem construtivista em cada um dos módulos principais. 🧱
Só tens 24 horas por dia.
Queres estudar, dormir, trabalhar, ver os amigos, treinar.
Cabe tudo?
Não. Tens de escolher.
Essa sensação, de ter de escolher, é onde a economia começa. 👇
Se pudesses ter tudo o que quisesses, não haveria nada a decidir.
Escassez: os desejos humanos por bens, serviços e recursos excedem aquilo que está disponível.
Os recursos (trabalho, tempo, terra, matérias-primas) existem em quantidade limitada. Os desejos, por outro lado, parecem ilimitados.
O tempo é o exemplo mais puro de escassez.
Rico ou pobre, toda a gente tem exatamente 24 horas por dia.
Cada hora de estudo é uma hora que não passas a dormir. A escassez obriga a escolher, sempre.
Chegamos então ao que a economia realmente é:
Economia: o estudo de como as pessoas tomam decisões perante a escassez.
Decisões de indivíduos, famílias, empresas, da sociedade. É sobre escolha.
A economia olha para o mundo a duas escalas:
🔎 Microeconomia: as decisões dos agentes individuais. Uma família, uma empresa, um mercado específico.
🌍 Macroeconomia: a economia como um todo. Crescimento, desemprego, inflação, o agregado.
| Microeconomia | Macroeconomia | |
|---|---|---|
| Olha para | Agentes e mercados | A economia inteira |
| Exemplos | O preço do pão, os salários de um setor | PIB, inflação, desemprego |
| Pergunta típica | Quanto produz esta empresa? | O país está a crescer este ano? |
Nesta cadeira começamos pela micro (Bloco 1) e subimos para a macro (Bloco 2). 🧗
Duas maneiras de afirmar algo em economia:
📏 Positivo: descreve o que é, e pode ser testado. “Subir o IVA reduz as vendas.”
⚖️ Normativo: diz o que deve ser, e envolve juízos de valor. “O IVA devia descer.”
Um bom economista mantém sempre os dois separados. A maior parte desta cadeira é positiva.
A escassez quer dizer que cada escolha abdica de alguma coisa. Por isso o assunto reduz-se a duas perguntas:
Quem está a escolher? Uma pessoa, uma empresa, um investidor, a decidir uma coisa. Isso é a Parte 1, e é micro.
E quando são todos ao mesmo tempo? Uma economia inteira, a repartir todos os seus recursos entre usos alternativos. Isso é a Parte 2.
A Parte 2 é o mesmo problema, com mais gente lá dentro. 👇
A escassez existe porque:
A. Os governos gerem mal os recursos.
B. Os desejos excedem os recursos disponíveis.
C. Não há dinheiro suficiente na economia.
D. Há demasiada especialização.
✅ B. Escassez é os desejos excederem os recursos. Existiria mesmo numa sociedade sem dinheiro.
Qual das seguintes é uma afirmação positiva?
A. O governo devia subsidiar os transportes públicos.
B. A inflação está demasiado alta.
C. Reduzir o desemprego é mais importante do que reduzir a inflação.
D. Uma subida de 10% no preço do tabaco reduz o consumo em cerca de 4%.
✅ D. Só a D afirma algo sobre o que é, e a afirmação pode ser confrontada com dados. A e C têm um “devia” explícito e uma ordenação explícita. A B parece factual mas esconde um juízo de valor na palavra demasiado: quão alta é demasiado alta não é coisa que os dados resolvam.
Uma câmara municipal está a decidir se fecha uma rua do centro aos carros e a transforma numa zona pedonal.
a) Identifica o recurso escasso no centro desta decisão.
b) Classifica cada afirmação como positiva ou normativa: (i) “Tornar a rua pedonal reduziria as entregas ao comércio em 12%”; (ii) “A câmara devia pôr os residentes à frente dos condutores”; (iii) “O projeto custa 4 milhões de euros.”
c) É uma pergunta micro ou macro? Uma linha de justificação.
a) A própria rua: uma quantidade fixa de espaço com usos alternativos (carros, peões, entregas, estacionamento). O espaço é escasso exatamente no sentido desta parte, e nenhuma quantidade de dinheiro torna a rua mais larga.
b) (i) positiva, uma afirmação testável sobre o que aconteceria. (ii) normativa: “devia”, mais uma ordenação de que interesses contam. (iii) positiva, um número que pode ser verificado nas contas.
c) Micro. Um agente, uma decisão, um pequeno mercado para um pedaço de espaço. A versão macro perguntaria pela produção ou pelo emprego na economia inteira, não numa rua.
Está à venda uma nota de €10. Qual é o máximo que entregarias por ela? 🤔
€11? Não. Ficavas com menos €1 no momento em que pagasses. ❌
€9,99? Sim, e ficavas um cêntimo melhor. ✅
Disposição a pagar, ou preço de reserva: o máximo que pagarias, o ponto em que comprar e não comprar te é indiferente. Aqui é exatamente €10.
Cada escolha tem um benefício \(B\), o que vale para ti, e um custo \(C\), o que entregas.
\[S = B - C\]
Excedente: o que a escolha te deixa depois de a teres pago.
Compra a nota a €9,99 e \(S = 0{,}01\). Paga €11 e \(S = -1\). Age só enquanto \(S > 0\).
Aquele exercício transformou “vale a pena fazer isto?” num número.
Uma opção, um escalar. E duas opções podem ser comparadas, porque escalares podem.
📎 Guarda este objeto. Na sessão 3 calculamos este mesmo número para cada comprador de um mercado e somamos, e a soma torna-se uma área debaixo da curva da procura. A mesma quantidade, agregada. 🔁
Escassez, outra vez: ficar com uma quer dizer abdicar da outra.
A opção 1 deixa-te \(B_1 - C_1\). A opção 2 deixa-te \(B_2 - C_2\).
Ser racional quer dizer aqui uma coisa: escolher a opção com o maior excedente.
Portanto escolhes a opção 1 exatamente quando \[B_1 - C_1 > B_2 - C_2\]
Passa \(C_1\) para o outro lado, e não mudes mais nada:
\[B_1 - C_1 > B_2 - C_2 \qquad \Longleftrightarrow \qquad B_1 > \underbrace{C_1 + (B_2 - C_2)}_{\text{custo de oportunidade da opção 1}}\]
Lê o lado direito. O que a opção 1 custa de facto é o que pagas por ela, mais o excedente de que abdicaste por não escolheres a melhor alternativa.
Custo de oportunidade: o teu próprio custo, mais o excedente da melhor alternativa que recusaste.
Então a regra toda é benefício > custo de oportunidade, e verifica-se para exatamente uma opção: a melhor.
O teu verão: um estágio pago, ou uma escola de verão que custa €1200.
| Opção | Benefício | Custo | Excedente |
|---|---|---|---|
| Estágio | 2000 | 0 | 2000 |
| Escola de verão | 3000 | 1200 | 1800 |
Estágio: custo de oportunidade \(= 0 + 1800 = 1800\), e \(2000 > 1800\). Racional. ✅
Escola de verão: custo de oportunidade \(= 1200 + 2000 = 3200\), e \(3000 < 3200\). Não racional. ❌
Repara que a escola de verão tem o maior benefício e mesmo assim perde.
Não há almoços grátis. 🍽️
Uma hora a estudar é uma hora em que não estás a trabalhar nem a descansar.
Mil euros num depósito a prazo são mil euros não investidos noutro lado. A 3% ao ano, mantê-los ali em vez de na alternativa custa €30 por ano, quer alguém te mande a conta quer não. 💸
É por isso que o custo contabilístico e o custo económico diferem. O contabilista regista o que foi pago; o economista acrescenta aquilo de que se abdicou.
Já gastaste €8 num bilhete de cinema. A meio, percebes que detestas o filme.
Ficas ou sais?
Os €8 não voltam, faças o que fizeres.
Custo afundado: um custo já incorrido e irrecuperável.
A decisão racional: ignora o custo afundado, olha só para o futuro. Se detestas o filme, sai. 🎬
Isto é uma propriedade da maximização.
No intervalo, a escolha é sobre o que acontece a seguir, e os €8 estão em todos os ramos:
\[\max_{a \,\in\, \{\text{ficar},\, \text{sair}\}} \; \big[\, B(a) - C(a) - 8 \,\big]\]
Uma constante aditiva não mexe num argmax:
\[\arg\max_{a} \big[\, f(a) - k \,\big] \;=\; \arg\max_{a} f(a)\]
Portanto o preço do bilhete não pode mudar a decisão. 🎟️
As grandes decisões raramente são “tudo ou nada”. São “um pouco mais ou um pouco menos”.
Não decides “estudar ou não estudar”. Decides se mais uma hora vale a pena.
Comparas o benefício marginal dessa hora com o seu custo marginal.
A regra de ouro: continua a fazer uma coisa enquanto o benefício marginal for maior do que o custo marginal.
Seja \(B(q)\) o benefício total de fazer \(q\) e \(C(q)\) o custo total. O problema é
\[\max_{q} \; B(q) - C(q)\]
Derivando e igualando a zero: \(B'(q) = C'(q)\).
Ou seja, BMg = CMg. A “regra de ouro” da economia é a condição de primeira ordem que já conheces.
O BMg desce, o CMg sobe, e cruzam-se em q* = 4 horas.
As duas metades desta parte são o mesmo problema, \(\max_{x \in X} \; B(x) - C(x)\), lido a duas resoluções:
| Conjunto de escolha \(X\) | Condição de otimalidade | |
|---|---|---|
| Qual? | \(\{1, 2\}\), discreto | \(B_1 - C_1 \;\ge\; B_2 - C_2\) |
| Quanto? | um intervalo, contínuo | \(B'(q) = C'(q)\) |
A condição discreta compara totais, em euros. A contínua compara marginais, em euros por hora. Num intervalo, o rival de \(q\) é \(q + \Delta q\): divide a diferença de excedentes por \(\Delta q\), faz \(\Delta q \to 0\), e a comparação passa a ser \(B'(q)\) contra \(C'(q)\).
Um incentivo é qualquer coisa que desloca o \(BMg\) ou o \(CMg\). Desloca qualquer das curvas e \(q^{*}\) muda, porque \(q^{*}\) é definido pelo ponto onde se cruzam.
Sobe o imposto sobre os combustíveis: o \(CMg\) de conduzir desloca-se para cima, o cruzamento vai para a esquerda. As pessoas conduzem menos e compram carros mais eficientes. 🚗
Uma bolsa ligada às notas aumenta o \(BMg\) de estudar: o cruzamento vai para a direita. 🎓
Prever comportamentos é fazer estática comparada sobre esse cruzamento.
Podes escolher a opção 1 ou a opção 2, nunca as duas, e a opção 1 é a escolha racional. O custo de oportunidade da opção 1 é:
A. O custo \(C_1\) que efetivamente pagas por ela.
B. O benefício \(B_2\) da opção que recusaste.
C. O excedente \(B_2 - C_2\) de que abdicaste.
D. \(C_1 + (B_2 - C_2)\): o que pagas, mais o excedente de que abdicaste.
✅ D. Racionalidade é \(B_1 - C_1 > B_2 - C_2\), que é \(B_1 > C_1 + (B_2 - C_2)\). A opção C é só a metade implícita; o dinheiro que entregas também é um custo.
O custo afundado de uma decisão:
A. Deve pesar muito na decisão.
B. É irrelevante para a decisão racional.
C. É a mesma coisa que o custo de oportunidade.
D. Cresce com o tempo.
✅ B. Já não é recuperável, por isso entra em todos os ramos do problema como a mesma constante, e as constantes não mexem num argmax. Só contam os benefícios e custos que ainda estão à tua frente.
Estudar \(q\) horas traz um benefício total \(B(q) = 90q - 7{,}5q^{2}\) e tem um custo total \(C(q) = 30q + 7{,}5q^{2}\) (euros, \(q\) em horas).
a) Deriva o benefício marginal e o custo marginal.
b) Encontra o número ótimo de horas \(q^{*}\).
c) Que benefício líquido obtém o estudante em \(q^{*}\)?
a) Deriva os totais: \[BMg(q) = B'(q) = 90 - 15q, \qquad CMg(q) = C'(q) = 30 + 15q\]
b) Iguala \(BMg = CMg\): \(90 - 15q = 30 + 15q \Rightarrow 60 = 30q \Rightarrow q^{*} = 2\) horas, onde \(BMg = CMg = 60\) euros por hora.
c) \(B(2) - C(2) = (180 - 30) - (60 + 30) = 150 - 90 = 60\) euros. É mesmo um máximo: \(B'' - C'' = -15 - 15 < 0\). ✅
A Parte 1 deu uma regra a um agente. Agora põe muitos deles na mesma economia.
Imagina teres de cultivar o teu trigo, construir a tua casa e reparar o teu telemóvel. Impossível.
Ninguém vive assim. Porquê? A resposta de Adam Smith (1776): a divisão do trabalho. 🏭
Smith observou uma fábrica de alfinetes. Fazer um alfinete envolve cerca de 18 tarefas distintas.
Um trabalhador sozinho: talvez 20 alfinetes por dia.
Dez trabalhadores, cada um especializado numa tarefa: 48 000 alfinetes por dia. 🤯
Isto é 4800 por trabalhador, contra 20. Como?
Smith deu três razões:
Se me especializo numa só coisa, como obtenho tudo o resto?
Troco. Uso o que ganho com o meu trabalho para comprar o que outros produziram.
A especialização e o mercado andam sempre juntos. Não consegues construir um telemóvel, mas podes comprar um. 📱
O limite do próprio Smith: a divisão do trabalho é limitada pela extensão do mercado. Um especialista precisa de compradores suficientes para valer a pena ser especialista. 📏
Smith diz que a especialização aumenta a produção. Não diz quem deve fazer que trabalho.
Supõe que duas pessoas sabem fazer os dois trabalhos. Como as distribuímos?
A resposta é a Parte 1, aplicada à produção. Pôr alguém num trabalho custa a produção que essa pessoa teria feito noutro: um custo de oportunidade.
Portanto a regra é: dá o trabalho a quem abdica de menos para o fazer. 👇
A Ana e o Bruno trabalham cada um um dia inteiro, em pão 🍞 ou software 💻:
| Trabalhador | Só pão | Só software | Custo de oportunidade de 1 software |
|---|---|---|---|
| Ana | 12 | 6 | 2 pães |
| Bruno | 6 | 4 | 1,5 pães |
A Ana é melhor nos dois trabalhos: 12 contra 6, e 6 contra 4. Tem a vantagem absoluta em tudo.
E mesmo assim deve ser o Bruno a escrever o software: abdica só de 1,5 pães por unidade, e a Ana de 2. Custo de oportunidade mais baixo, por isso vai ele primeiro.
Vantagem comparativa: produzir algo a um custo de oportunidade mais baixo do que outra pessoa.
Os dois no pão: 18 pães. Os dois no software: 10 unidades. Entre os dois extremos, o Bruno muda primeiro.
A eficiência tem uma ordem: põe primeiro no trabalho o produtor mais barato.
Até 4 unidades de software, é o Bruno que o faz, e cada uma custa 1,5 pães. É o troço mais plano.
Depois das 4, o Bruno está totalmente ocupado e só sobra a Ana. Cada unidade adicional passa a custar 2 pães. A linha fica mais inclinada.
Portanto a fronteira dobra porque a capacidade barata acaba primeiro. 📐
Dois produtores deram uma quebra. Cem dão noventa e nove, e os cantos desaparecem.
Fronteira de possibilidades de produção (FPP): o que uma economia consegue produzir com todos os seus recursos usados plenamente e de forma eficiente.
🔵 Sobre a curva (A): todos os recursos estão a ser usados. Isto é eficiente.
🔴 Dentro da curva (B): desperdício, recursos parados. Isto é ineficiente.
🟢 Fora da curva (C): desejável, mas inatingível com os recursos e a tecnologia de hoje.
Mantém as duas palavras separadas: dentro é um desperdício, fora é um limite.
Escreve a fronteira como \(y = f(x)\), com \(x\) unidades de software e \(y\) de pão. O seu declive é a taxa de troca da economia entre os dois:
\[TMT(x) \;=\; -\,\frac{\mathrm{d}y}{\mathrm{d}x}\]
Taxa marginal de transformação: quanto \(y\) a economia tem de sacrificar para obter mais uma unidade de \(x\).
Ou seja: o custo de oportunidade do software, medido em pão, para uma economia inteira. Na fronteira com a quebra, a \(TMT\) era 1,5, depois 2. 🔁
Na fronteira com a quebra, a \(TMT\) saltou uma vez. Numa fronteira suave sobe continuamente, e é exatamente isso que concavidade quer dizer:
\[\frac{\mathrm{d}\,TMT}{\mathrm{d}x} > 0 \quad \Longleftrightarrow \quad \frac{\mathrm{d}^{2} y}{\mathrm{d}x^{2}} < 0 \quad \Longleftrightarrow \quad f \text{ côncava}\]
A economia por trás é o argumento da quebra com mais produtores: os recursos não são igualmente adequados aos dois usos, e os mais adequados mudam primeiro. Cada unidade adicional custa mais do que a anterior.
Uma fronteira reta diria que todos os recursos são igualmente bons nos dois trabalhos, e então a ordem da mudança não importaria.
Como chegamos ao ponto C, hoje inatingível?
Com mais recursos (mais trabalhadores, mais máquinas) ou melhor tecnologia.
O crescimento económico desloca a fronteira para fora. É esse o assunto do Bloco 2. 🌱
A Ana e o Bruno eram dois trabalhadores. Troca-os por dois países e nem um passo do argumento muda.
O país com o custo de oportunidade mais baixo num bem tem a vantagem comparativa nesse bem, e deve produzi-lo. A Ana era melhor em tudo em termos absolutos, e mesmo assim foi o Bruno a escrever o software. 🌐
É essa a base do comércio internacional. E o que um país ganha com ele pode ler-se diretamente na fronteira que acabámos de desenhar. 👇
escassez → custo de oportunidade → vantagem comparativa → especialização → troca. ⛓️
O crescimento mexeu na própria fronteira, e precisou de máquinas novas ou tecnologia nova.
A pergunta mais difícil: com os recursos de hoje e a tecnologia de hoje, pode um país consumir um cabaz que a sua própria fronteira põe fora de alcance?
Sim, se puder trocar. 🤝
A fronteira limita o que um país consegue produzir. O que consome é outra questão a partir do momento em que há alguém do outro lado de uma troca.
De volta ao ponto A: a economia faz 6 unidades de software e 8 mil pães. Supõe que o mercado mundial troca 3 mil pães por cada 4 unidades de software, um preço que esta pequena economia toma como dado.
Cada unidade vendida traz 0,75 de volta, a primeira e a última por igual, por isso os cabazes que A abre ficam numa linha reta que passa por ele.
Vende as 6 unidades de software e ficas com 12,5 mil pães, quando produzir pão sozinho para nos 10. O outro canto: 16,7 unidades de software contra 10.
A produção nunca saiu da fronteira. Foi o consumo que se moveu para a linha, e a região sombreada entre as duas são os ganhos do comércio.
Nenhum país é obrigado a trocar ao preço que enfrenta.
O ponto A está sobre a linha, com zero trocas (autarcia). Qualquer que seja o preço, o cabaz que a economia produziu continua disponível. ✅
E a fronteira é côncava, por isso a reta tangente fica sempre acima dela ou em cima dela: nenhum cabaz que era atingível antes de o preço existir se torna inatingível agora.
Porquê produzir em A? Onde a fronteira é mais plana do que a linha de preços, uma unidade de software custa à economia menos pão do que o mercado paga por ela, por isso deve fazer mais. Isso para exatamente onde a \(TMT\) iguala o rácio de preços, que é onde a linha é tangente. 🎯
Produzir em A e consumir noutro ponto da linha é especialização e troca, desenhadas. De onde vem o preço, e como dois países dividem estes ganhos, é a sessão 13. 🔁
Um ponto dentro da Fronteira de Possibilidades de Produção representa:
A. Uma combinação eficiente.
B. Uma combinação inatingível.
C. Uma combinação com recursos desperdiçados.
D. Crescimento económico.
✅ C. Dentro da fronteira há recursos parados: produção ineficiente.
A Ana produz mais dos dois bens por dia do que o Bruno. Daqui resulta que:
A. A Ana deve produzir os dois bens, e o Bruno nenhum.
B. Não há nada a ganhar em deixar o Bruno produzir alguma coisa.
C. A Ana tem a vantagem comparativa nos dois bens.
D. Quem produz o quê continua a depender dos custos de oportunidade, que estes números por si só não dão.
✅ D. A vantagem absoluta compara níveis de produção; a vantagem comparativa compara aquilo de que cada um abdica. A Ana era melhor nos dois e mesmo assim deixou o software ao Bruno, porque ele sacrificava menos pão por ele. A C é impossível: os dois custos de oportunidade são recíprocos, por isso ninguém pode ser mais baixo nos dois.
A fronteira de uma economia é \[y = 100 - \tfrac{1}{4}x^{2}, \qquad 0 \le x \le 20\] com \(x\) unidades de software e \(y\) toneladas de pão.
a) Quanto pão em \(x = 0\)? E em \(x = 8\)?
b) Obtém a taxa marginal de transformação \(TMT(x)\).
c) Aproximadamente, quanto custa a 8.ª unidade de software? E a 16.ª?
d) A fronteira é côncava? Diz o que isso significa em termos económicos.
a) \(y(0) = 100\) toneladas. \(y(8) = 100 - 64/4 = 84\) toneladas.
b) \(TMT(x) = -\,\mathrm{d}y/\mathrm{d}x = x/2\).
c) \(TMT(8) = 4\) toneladas, \(TMT(16) = 8\) toneladas. A 16.ª unidade custa o dobro do pão da 8.ª. 📈
d) \(y'' = -1/2 < 0\), portanto sim, e de forma equivalente \(TMT' = 1/2 > 0\). Economicamente: os recursos não são igualmente adequados aos dois usos, por isso os que passam primeiro para o software são os menos produtivos em pão, e cada unidade adicional custa mais do que a anterior. ✅
⚖️ Escassez quer dizer que os recursos são limitados e os desejos não, por isso cada escolha abdica de alguma coisa.
💰 O excedente \(B - C\) transforma “vale a pena fazer isto?” num só número, e é isso que torna as opções comparáveis.
💶 O custo de oportunidade é o que pagas mais o excedente de que abdicas, por isso a regra é benefício acima do custo de oportunidade.
➕ As escolhas são marginais: \(BMg = CMg\) é a condição de primeira ordem de \(\max B(q) - C(q)\), e os custos afundados desaparecem porque as constantes não mexem num argmax.
📐 A FPP é essa lógica para uma economia inteira. O seu declive é a TMT, e é côncava porque os recursos mais adequados são usados primeiro.
🌍 Diferenças no custo de oportunidade são vantagem comparativa, e é por isso que nos especializamos e trocamos. A sessão 13 transforma isto em comércio.
Escolha do Consumidor.
Hoje comparámos o excedente entre um punhado de opções. A seguir fazemo-lo como deve ser:
Até para a semana. 🙌